Friday, March 30, 2007

Será que é ela ?


A menopausa. Tenho sentido uns calores noturnos, acordo no meio da noite e em seguida uma onda de calor brota no peito e se espraia. Tomo um copo de água gelada e o calor passa.
Isso começou há uma semana, coincidiu com a onda de calor que assola Brasília no momento, mas mesmo assim desconfio que pode ser ela.
E se for? Se não for agora será em breve, pois já tenho 44 anos.
Desde que conheci Guto ,e estamos juntos há três anos, acalento a esperança de engravidar.
Quando fiz 40 fui tomada de uma súbita urgência de dar um jeito na minha vida: separei-me de Olivier , voltei para o Brasil e ,de quebra, realizei o grande sonho de morar em Olinda.
Foi lá que conheci Guto...
Porém os meus desencontros amorosos anteriores foram devidamente somatizados em incontáveis miomas. Ano passado, em setembro, fui operada e retirei todos eles. Meu ventre ganhou um sorriso em forma de cicatriz.
Fevereiro tomei a última cartela de anticoncepcional receitada pelo médico para impedir que eu engravidasse no período de cicatrização. Estou esperando que venha minha primeira menstruação normal pós-pílula e pós-cirurgia.
Virá?
A possibilidade de que não venha soa como notícia de morte de uma amiga, chata, porém amiga .
Quando entrei na puberdade minha vida psíquica mudou radicalmente. A descarga de hormônios no meu corpo varreu da minha mente qualquer prioridade que não fosse sexo e amor. Comecei então a grande busca que ocupou a maior parte da minha vida e consumiu muita energia.
Só há pouco descobri a tranquilidade no amor, anúncio de uma nova era onde penso poder enfim dedicar-me intensamente ao meu trabalho, o cinema.
Hoje li no livro de Gaston Bachelard, A Poética do Espaço:
"No reino da imaginação absoluta, somos jovens muito tarde. É preciso perder o paraíso terrestre para vivê-lo na realidade de suas imagens, na sublimação absoluta que transcende toda paixão".
E ainda:
"Que pena! É preciso avançar na idade para conquistar a juventude, para livrá-la dos entraves, para viver segundo seu impulso inicial".
Considero outra grande coincidência o fato de que desde o ano passado comecei a praticar um esporte que consiste na arte de subir e descer de árvores. Recuperei então uma das grandes alegrias da minha infância.
Estou indo, estou voltando...

Thursday, March 29, 2007

O mistério das batatinhas


Adélia Prado ,escrevendo sobre a sua infância, disse que sua mãe preparava para o almoço feijão roxinho com molho de batatinhas. O texto é lindo, ficamos com ela paralisados naquele instante intenso desfrutando o prazer anunciado pelo cheiro da comida, o cheiro do amor da mãe.
Logo desejei comer realmente aquele molho de batatinhas. No cardápio da minha infância nunca houve molho de batatinhas para eu ter pelo menos uma idéia do gosto. É triste viver com um gosto fantasma na boca, um gosto que ficou no limiar da sensação.
Coloquei no google, molho de batatinhas e apareceram várias referências ao texto de Adélia, até tese de mestrado e nada da receita. Encontrei outras receitas: batatinhas ao vinagrete e batatinhas ao murro.
Fiquei tentada a acreditar que batatinhas ao vinagrete seriam o outro nome das minhas queridas, a foto do prato era bonita, mas depois pensei que batata ágria com feijão roxinho deve ser azia na certa. Não, tem que ser outra receita.
Será que o molho de batatinhas era uma exclusividade da mãe dela ou fará parte da tradição culinária de Divinópolis? Perguntas sem resposta.
Hoje preparei para o almoço ensopado de coxas de galinha caipira com batatinhas. Estou tratando de inventar minhas próprias lembranças.
Hoje também é o aniversário da minha mãe, 75 anos. Ela não sabe cozinhar.
Este post é uma mensagem na garrafa jogada no grande mar da internet, quem sabe uma outra alma faminta como eu me ajuda a resolver o mistério.

Wednesday, March 28, 2007

Gótica


Já pensei várias vezes em fazer tatuagem mas os modelos que imaginei para mim não agradam a ninguém. Toda vez que comento vejo caras de repulsa.
Os modelos são os seguintes:
Um punhal enfiado nas costas (para exorcisar os verdadeiros)
Joelhos ralados (uma homenagem à infância)
Os pulsos e o pescoço costurados como os da "Noiva de Frankestein"(meu ideal de glamour)
Mas o principal motivo de não ter tatuagem foi uma entrevista que li há muito tempo onde alguém dizia que era ridículo uma velha tatuada. Fiquei pensando nas tatuagens murchando e desaparecendo entre as rugas.
Eu, com meus cem anos de idade, crente que estou abafando, querendo mostrar minhas tatuagens sem saber que o cara é um assassino da máfia japonesa especializada no tráfico de pele humana tatuada. Vou abrindo minhas preguinhas delicadas de pele tão fina, quase transparente, e mostrando minhas flores: Oh que lindas peonias! Exclama o japonês.
Meses depois estou eu esticada num leque , fazendo parte de um desfile de moda underground para milionários pervertidos.

Tuesday, March 27, 2007

Um urubu pousou na minha sorte


O nome dele era Hildo, de apelido urubu louro porque era moreno e a mãe dele pintava uma mecha loura no seu cabelo.
Ele fazia a minha vida um inferno durante a alfabetização; saía da carteira dele para puxar o meu cabelo e me chamava de tigre da esso.
Eu com cinco anos de idade já me destacava como boa desenhista. Um dia estou voltando do recreio, entro na sala e vejo o Hildo desenhando uma flor.
Era uma flor desproporcional, o talo parecia um tronco de árvore e as pétalas eram nanicas. Ele percebeu o meu olhar e perguntou o que eu achava da flor dele.
Eu, naquele tempo, não guardava rancor no coração e achei que devia incentivá-lo, disse que a flor estava muito linda.
A partir daí o Hildo mudou comigo, apaixonou-se ,ou quem sabe já era apaixonado e eu não percebia. Queria conversar comigo o tempo todo e era daquele tipo que cospe em você enquanto fala. Eu, educadamente, esperava ele sair de perto para enxugar minha cara.
Concluí que preferia quando ele me chamava de gata podre.

Monday, March 26, 2007

Cala-te boca


Já contei o maior fora que levei, agora conto o maior que eu dei.
O meu amigo Adjafre, Jajá para os íntimos, estava louco para presentear o Rogiltom em agradecimento a todos os trampos que o mesmo havia descolado durante aquele ano.
Conversa vai, conversa vem, um dia Rogiltom abre a boca e diz que é louco para ter um cão da raça whippet.
Mais que depressa Jajá descobriu um canil especializado na Bahia e encomendou o filhote. Quando o bicho chegou fui com ele buscar no aeroporto e depois a um pet shop onde o recém-chegado tomou um banho e ganhou um laço de fita.
Jajá localizou o paradeiro de Rogiltom em um bar e para lá fomos com a surpresa.
Era uma mesa grande e o cachorro causou grande alvoroço. Enquanto Jajá, Rogiltom e o Whippet interagiam numa ponta da mesa eu sentei na outra. Ao meu lado alguém que eu não conhecia comentou:
-Espero que este dure.
-Porque?
-O último cachorro do Rogiltom morreu porque ele viajou num fim de semana , resolveu ficar mais tempo e esqueceu que tinha um cachorro em casa. Quando voltou encontrou o bicho durinho com as patas para cima. Morreu de inanição.
Quando voltávamos para casa contei a história ao Jajá e ele ficou super preocupado: será que a alegria do amigo havia sido sincera? Disse que ia ficar de olho na evolução do caso.
Um ano depois estou de volta a Fortaleza e me encontro no mesmo bar, numa mesa animadérrima. A pessoa que está ao meu lado parece familiar e eu lembro: foi ele que me contou a história da morte do cachorro! Só que eu não lembrava mais o nome da figura mas quis demonstrar que tinha boa memória.
-E aí, o cachorro do Rogiltom ainda está vivo?
-Quem, o Jajá?
-O Jajá foi quem deu o cachorro.
-O nome do cachorro é Jajá.
-Olha só, uma homenagem ao amigo. E então, está sobrevivendo ao assasino de cachorros?
-Como assim?
-Ao Rogiltom.
-Jane, eu sou o Rogiltom.
-(.)

Friday, March 23, 2007

Paixão autista


Vou contar o pior fora que levei na minha vida, o mais patético, o mais ridículo.
Eu era uma mulher casada na época , ainda sou mas com outro homem. Meu casamento estava descendo a ladeira sem freio e eu me apaixonei perdidamente por um cara.
No começo ele teve uma curiosidade por mim e disse até que tinha tara por mulher casada. Mas depois da primeira vez não rolou repeteco e fui classificada como amiga.
O cara morava em São Paulo e eu em Paris, não era para rolar mesmo. Mas coincidiu que num espaço de tempo de dois anos eu fui várias vezes a São Paulo a trabalho, e cada vez tratei de assediar o rapaz que conseguia sempre me manter a uma distância segura para ele. Eu não desistia e inventava novas estratégias.
A gota d'àgua foi quando cheguei sem avisar no prédio dele com a desculpa que estava passando por perto. Ele me olhou com cara de bicho, disse -entra- e voltou para a pia onde estava lavando os pratos. A visão da corcunda dele me comoveu e eu tentei dar um abraço . Ele deu um pulo e disse bem claro: não vem que não tem!
Depois dessa eu tomei juízo e sumi.

Thursday, March 22, 2007

Auto-censura ou minha vida não é um blog aberto


Onde está a coragem de realmente se expor? E para que? Aplausos?
Aos poucos a sala ficaria vazia de tanta sinceridade e intimidade forçada.
Melhor contar lorotas engraçadas e esquecer de mim.
Vai que um dia alguém da família resolve ler? Ou até mesmo os amigos...
Minha imagem de pessoa leve arruinada para sempre. Descobrirão que arrasto correntes pela casa, que sou trágica, dramática, exagerada, rancorosa e depressiva.
Eu mesma vou me acusar de auto-sabotagem e língua solta.
Assim deixo de contar metade do que queria.
A banda podre da maçã.

Tuesday, March 20, 2007

Hora do almoço


Haviam trabalhado como vendedoras em uma butique carésima que vivia às moscas. Por puro ócio, contaram-se as vidas , trocaram confidências e tornaram-se amigas. A butique faliu como era de se esperar. Agora uma está de atendente numa clínica geriátrica e a outra vende celulares.
Continuam a trabalhar no mesmo bairro, Aldeota, e na mesma rua, Santos Dumont. As vezes se encontram por acaso em algum self-service da área. Não dá para almoçar fora todo dia, é um luxo que se permitem para fazer uma social, ver gente e serem vistas.
Sentadas diante de porções delicadas de feijão com arroz e bife iniciam um bate-papo.
-O teu deu quanto?
-Trezentas e dez gramas, e o teu?
-O meu deu duzentas e oitenta. Eu como mesmo é de noite.
-Eu também.
-E tu mulher, quais são as novidades? Ainda apaixonada?
-Acabou faz tempo, tá esquecida? E o teu marido?
-Do mesmo jeito...
A frase dita com desânimo significava "sem jeito".
-Eu não sei o que é pior; gostar muito ou não gostar. Acho que pior é não gostar.
-Mas quando você gosta muito de tudo você sofre.
-Mas quando não gosta tudo dá abuso e parece que aquilo tá só empatando sua vida. Tem notícia da Val?
-Ele agora tá morando na casa dela, na casa da sogra. Agora é que não separa mesmo.
-Porque?
-Agora ele tá um santo, não dá motivo de reclamação. Acho mais difícil dizer pra uma pessoa: vá embora da minha casa, que dizer: tô indo, cuida da tua vida...
-Vamos mudar de assunto. Olha que coroa charmosão.
-Casado, vi logo a aliança. Eu quero um viúvo ou separado com filho criado.
-E aí ?
-Tinha um arrastando a asa pro meu lado, seresteiro. A gente chegou a sair duas vezes mas vi que o cara era mão-de-vaca.
-Ah é?
-É, pediu meia picanha fatiada pra dividir com a desculpa do ácido úrico e acabou que comeu tudo numa velocidade, eu só belisquei. E não deu os dez por cento do garçon!
-Sabe aquela amiga minha de Belém, a Conceição?
-Sei.
-Ela tá vendendo uns perfumes de umbanda. Tem um bom pra tu:"passa tudo pro meu nome".
-Fala sério mulher!
-Eu já encomendei o meu:"queira ou não queira tu vai me querer"...

Sunday, March 18, 2007

A Árvore da Miséria


Eu estava em João Pessoa há uma semana e hoje era o grande dia; íamos começar a filmar o curta "A Árvore da Miséria".
Quando boto o pé fora do hotel vejo a manchete gritando na banca de jornal: Lady Di morreu!
Imediatamente pensei: mataram ela. Claro, eu morava na França e conhecia o preconceito contra os árabes. Nunca iam admitir que um útero real, que já havia parido o próximo herdeiro do trono da Inglaterra, parisse também um arabezinho. Já imaginaram que promiscuidade o rei da Inglaterra com um irmão árabe? Pior que um beijo na boca entre Júlia Roberts e Denzel Washington no cinema ! Seria um lindo golpe na indústria da guerra mas não aconteceu.
Fiquei triste por ela morrer logo agora que se tornara alguém interessante. Logo agora que eu começava a ficar fã dela. Senti também que o circo perdeu uma grande oportunidade de pegar fogo e a grande telenovela do século acabou nos primeiros capítulos.
O dia começou fúnebre e lindo na cidade onde o sol amanhece mais cedo.
A nossa locação principal era uma casa abandonada no meio de um matagal, um lugar bem isolado. As condições de filmagem eram rústicas, em parte pela pouca experiência dos produtores e também por falta de grana mesmo. Eu me adapto fácil.
Na hora do almoço, a gente ia andando debaixo de um sol de rachar até uma árvore frondosa onde haviam instalado umas mesinhas e a gente comia uma quentinha fria com refrigerante quente, ou galinha ou bife.
Como disse antes, eu me adapto fácil e na semana que durou a filmagem estabeleci uma rotina de aproveitar a parada do almoço para fazer xixi. Eu me afastava do grupo no trajeto de ida ou de volta e ia até uma moita bem selecionada.
Estava assim, xixizando, quando tive a súbita revelação: Lady Di nunca pôde fazer isto! Tão perseguida pelos fotógrafos paparazzis, sempre cercada de seguranças, nunca teve esta mísera liberdade de fazer xixi atrás de uma moita.
Pobrezinha.

Saturday, March 17, 2007

Estou perdendo perninhas !


A Índigo é realmente um docinho !
Mandei umas sementes de mogno para ela em prol da salvação do nosso planetinha e ela em agradecimento me deu um livro de sua autoria, com dedicatória e tudo.
Já li e gostei muiiiito . Recomendo a todos.
Obrigada Índigo!

Friday, March 16, 2007

Garota de sorte


As visitas se debruçavam sobre o berço da recém-nascida e subitamente o riso perdia a naturalidade, ficava congelado como uma pose de retrato até o sangue frio tomar o lugar da espontaneidade perdida. Alguns desviavam do alvo e diziam:
-Que enxoval mais primoroso!
Ou recorriam à eterna tábua de salvação:
-Como se parece com vocês!
Uma visita mais afoita quis agradar e soou como corda em casa de enforcado:
-Para mim não existe criança feia, são todas lindas.
Os pais da menina comportavam-se magnificamente. Era um mistério saber se haviam combinado algo entre si ou era a notória cegueira das corujas.
-Que esperta! Que inteligente! Que engraçada! Que carinhosa! Que jeitosa! Que ágil! Que simpática!
A menina foi crescendo e colecionando elogios. Um dia chegou da escola com olhos aflitos.
-Mãe, sou bonita?
A mãe já esperava esta pergunta há séculos e não gaguejou na resposta.
-Lindíssima!
-Pai, sou bonita?
-Filha ,você é uma beleza exótica.
A sobrancelha da mãe reprovou de longe a palavra exótica mas a menina nem percebeu e também não perguntou mais nada.
Ela tinha os vestidos mais bonitos, o caderno mais enfeitado, a mãe mais simpática que preparava as merendas mais gostosas quando os coleguinhas vinham estudar na casa.
Era aceita por todos como ela era, uma cor a mais na paleta do pintor divino e chegava mesmo a despertar inveja:
-De que ela vive sempre rindo? Será que não sabe?
É, ela não sabia mesmo e ria e dançava e ia a todas as festas, falava com todo mundo. Era uma garota popular, o que na adolescência é o trunfo mais alto.
Já mocinha os elogios mudaram. As amigas da sua mãe. depois de longos anos de convivência diziam com grande naturalidade:
-É uma moça preparada, uma moça de futuro.
Mas ficaram todos boquiabertos mesmo foi quando ela namorou, noivou e casou.
Casou de branco e a calda do vestido tinha cinco metros. O comentário geral era:
-Parece uma rainha!
Talvez ela preferisse parecer uma princesa ou uma fada, mas rainha também servia e o noivo não era nenhum sapo.
Teve uma filha que, oh alívio, era a cara do pai. Nunca a viram tão feliz como quando recebeu sua filhinha dos braços da enfermeira na maternidade.
-Como ela é linda!
O tempo foi passando, o casamento acabou por causa da possessividade dele. Ela se liberou: queimou o sutiã e comprou uma cinta-liga, teve amantes, colecionou histórias e virou escritora.
Hoje é uma senhora, mas nem tanto, lutando contra a balança entre um chope e outro. Observa com sabedoria a ação da força de gravidade que vai diluindo a arrogãncia dos contornos definidos e atraindo todo mundo para debaixo da terra. Socorre suas amigas quando elas estão murchinhas por falta de amor e auto-estima.

Thursday, March 15, 2007

Odores


As janelas fechadas por causa da chuva, eu voltando para casa depois de um dia de trabalho.
O ônibus cruza a ponte sobre o rio Capiparibe: detesto cheiro de calça jeans suja e cinto de couro molhado, pensei saindo do meu torpor.
Ainda bem que o dono daqueles cheiros combinados mantinha uma distância respeitosa de um palmo e meio do meu ombro. Mesmo assim eu não consegui mais relaxar, passei a vigiar o dono da calça com o canto do olho. Minhas lanças invisíveis prontas para perfurar sua cocha ao menor sinal de aproximaçã0.
Quando comecei a pegar ônibus sozinha sofri muito com esses homens que se aproveitam de um ônibus lotado para se esfregarem nas mulheres. Se eu sentava na cadeira do corredor logo aparecia um descarado para se encostar no meu ombro. Eu recuava até ficar parecendo a Torre de Pizza. O engraçado é que não passava pela minha cabeça a idéia de armar um barraco, eu era muito tímida e tentava inutilmente ser invisível.

Wednesday, March 14, 2007

Creonças


Bata, bata na minha cara se tem coragem!
E enfiava aquela cara de lua cheia atrevida na minha, bufando saliva e suor.
A menina tinha a minha idade porém era visivelmente mais forte que eu e queria provar isto.
Apesar da vontade e do convite não bati com medo de apanhar feio dela, uma atleta de natação.
Eu não lembro como chegamos a este ponto. Ela foi passar o dia lá em casa num arranjo feito entre nossas mães que eram amigas. Deu nisso.
Meu instinto de sobrevivência nesta época era mais forte que o meu orgulho, depois mudei para pior... Sobrevivi ao conflito mas o orgulho ferido naquela época dói até hoje.

Tuesday, March 13, 2007

Madagascar


Chegando mais uma vez em São Paulo em um dia de sol. É inverno mas não faz frio.
Na restituição de bagagens uns brasileiros falam de comida celebrando a alegria do retorno. A mulher é de Goiás e diz que hoje haverá churrasco na casa dela, o homem é do interior de São Paulo. Não é a primeira vez que escuto brasileiros falarem de comida na hora que o avião entra no território nacional. Lembro de uma mulher no avião estalando a língua e falando de galinha cabidela para quem quisesse ouvir.
No ônibus que me levará ao centro da cidade mais um sinal de que voltei; o meu vizinho fala no celular sem nenhuma contenção de volume e eu fico sabendo como andam seus negócios e que Maluf deve ganhar as eleições.
O ônibus sai um momento da marginal Tietê e penetra num bairro popular. Surgem casinhas que em São Paulo são indícios de um modo de vida extinto. Casinhas exiladas de um Brasil interiorano onde as pessoas ainda colocam suas cadeiras na calçada no fim da tarde para tomar a fresca e ver gente passar. Nada de quintal com árvores ou jardim com rosas, mas essas casinhas ainda conservam um jeito antigão de roupa dominical.
Leio uma placa: o Bar do Gordo apoia candidato tal. Deve ser um atestado de qualidade quando o dono de um restaurante popular é gordo. Tem um "Gordo" também no Recife, deve ter a mesma autoridade em comida barata e farta.
O cabelo negro e brilhante de uma mulher na calçada chama a minha atenção. No espelho da seção de cosméticos do free shop um tufo de cabelos brancos saiu de súbito da clandestinidade. Onde andavam escondidos? Foram traídos pela curiosidade de se verem no espelho depois da minha longa ausência.
A esta altura do trajeto já estava consciente da operação de filmar com os olhos o que via. Era o filme de mais uma volta, de mais um reencontro.
O ônibus retorna à marginal e um vestido verde-água se recorta contra o céu azul-magenta cruzando a ponte peatonal acima da minha cabeça. O momento cromático desse céu é uma super-produção de fim de mundo. Só uma cidade de vinte milhões de habitantes pode produzir esse efeito especial no céu do meu filme imaginário.
Lá vai um homem velho levando seus tesouros em quatro sacos de lixo e um outro que cruza a marginal engarrafada com um colchão mulambento debaixo do braço. O homem e sua cama...
Minha terra tem palmeiras... estava assistindo ao filme distraída e levei um sopro no coração: numa parada de ônibus alguém fez seu pouso. Ali, embaixo do meu nariz, uma cadela dormia tranqüilamente dando de mamar aos seus cachorrinhos, todos lindos e gordinhos. O carro do catador de papel parado do lado, esperando. Sem saber que ia chorar, chorei.
Bendito seja este homem, a cadela e seus cachorrinhos e bendita esta cidade enquanto deixar esta mãe amamentar seus filhos com tranqüilidade e que eles continuem sempre gordinhos.
Acabei de chegar.

Monday, March 12, 2007

Einstein


Passei minhas férias brincando com este vaso de plantas, constatei numa espécie de auto-congratulação.
Naquela época estava empenhada em ser uma cientista maluca e o meu sonho era criar uma nova espécie de animal, a lagartixa dourada.
A matéria prima principal era a água barrenta que escoava do jarro de plantas para um recipiente depois da rega diária. Eu adivinhava ali um suco mágico, o sangue da terra.
Numa garrafa de refrigerante adicionava outros elementos que encontrava pelo quintal e na cozinha. Depois escondia em um lugar escuro, longe dos olhos da minha mãe e das empregadas , mas principalmente porque o escuro era o elemento transformador da matéria inerte em viva.
Todos os dias conferia o avanço da experiência, a mistura de ingredientes em decomposição e nada de surgir dali o espernear de uma lagartixa dourada.
Cheguei a provar a minha podre poção mágica com a ponta do dedo molhada.Depois fiquei com medo de virar um monstro de filme de terror.
O líquido espumava e nada do milagre acontecer. Um dia joguei tudo fora.
Assim passaram minhas férias.

Sunday, March 11, 2007

Uma menina inocente


Eu não sei porque em plena puberdade decidi que queria ter um ar inofensivo, isto mesmo, inofensivo. Talvez eu achasse que combinava com os meus olhos graúdos ou apenas fosse o desejo de ser considerada boa.
O fato é que eu treinava meu olhar de Bambi no espelho e me achava linda assim tão inofensiva.
Um dia escutei um comentário pelas minhas costas: a Jane é o rabo da Iris.
Maria Iris era minha melhor amiga; menina falastrona, gabola e briguenta. Eu o rabo inofensivo do cachorro doido...
Vi que era hora de mudar de atitude.

Friday, March 09, 2007

Conselho de amiga


Vou dizer para ela: troque o analista pelo vinho. Em vez de 150 reais a sessão uma garrafa de 20 reais ou até menos. Sozinha, solene, um brinde vermelho rubi à solidão, à volúpia da alma calada que vai falar com a juda do vinho.
Um caderno ou computador, uma caneta ou lápis para não perder o fio da meada.
Bebendo e pensando.
Afiar a ponta do espírito é a tarefa para que a letra saia expressiva, tanto quanto as palavras.
Calma, luxo e volúpia , calma , luxo e volúpia. Repita as palavras mágicas.
Sinta-se cacto em terras áridas, rútilo de sol: aqui espero a visita de orquídeas, gramíneas e outras plantas delicadas quando venham as chuvas. Minha alegria é entre gravetos, cascavéis, formigas pretas e peixinhos aprisionados nas pedras.

Thursday, March 08, 2007

Minhas avós


Estão mortas as duas. Vovó Leonor morreu quando eu tinha seis ou sete anos e vovó Dedé no ano passado com 102 anos.
Vovó Leonor era a minha madrinha e vovó Dedé madrinha da minha irmã Tati. Quando criança não gostei desta repartição de avós, fiquei com a avó mais feia, do mesmo jeito que minha mãe decidiu que para os vestidos azul era a minha cor e rosa a da minha irmã. Não sei como Tati ainda achava que eu era a filha preferida.
Minha avó-madrinha morreu quando eu acabava de operar as amígdalas de maneira que esperaram cicatrizar para contar. Minha mãe me chamou para conversar numa manhã cedinho e disse assim que minha avó havia falecido. Me certifiquei que falecer queria dizer morrer mesmo.
Ela vivia em Salvador e a gente em Fortaleza, a convivência se dava raras vezes .Eu não me sentia especialmente apegada mas refleti que a morte de uma avó era algo importante e procurei chorar . Fiquei sentada no quarto das empregadas chamando lágrimas de dentro de mim e algumas vieram obedientes.
Eu gostava mesmo era de vovó Dedé. Minha primeira recordação, esta quando a gente passa a existir para si mesmo, foi eu caindo da cama e minha avó me salvando pelo braço. Nascendo de um susto eu disse a ela que nunca ia esquecer aquele momento e nunca esqueci.
Voltando à morte de vovó Leonor minha mãe comentou categórica que não se deve repetir o nome de pessoas vivas na família, que isto dá azar. Eu tenho uma prima chamada Leonorzinha, a conclusão lógica é que uma das duas tinha que morrer.
Minha avó teve um ataque cardíaco aos cinquenta anos de idade. Naquela época uma mulher de cinquenta já era uma velhinha. lembro das suas pernas cobertas de varizes azuis e grossas como raizes de árvore. "Morreu pela boca",dizia minha mãe, pois mesmo internada no hospital comia escondido coisas que não podia e que as amigas traziam para ela.
Outro dia conversando com uma prima que mora aqui em Brasília comecei a recordar minha avó Leonor. Com surpresa descobri que ela havia me ensinado um monte de coisas quando eu tinha menos que sete anos de idade: enfiar linha na agulha e dar o nózinho para ela não escapar, um ponto de bordado (o único que sei), dobrar uma folha de papel em sanfona e recortar bonequinhos que ficavam de mãos dadas em ciranda, fazer bichinhos espetando palitos de fósforo queimados em manguinhas pecas, colar tiras de papel para fazer correntes de enfeitar festas de natal, São João e aniversário.
Minhas duas avós eram mulheres muito habilidosas e prendadas. Geneticamente devo às duas a facilidade para os trabalhos manuais mas justiça seja feita antes tarde do que nunca; vovó Leonor foi uma avó muito bacana comigo.

Wednesday, March 07, 2007

Quando vendi minha aliança


Hoje vendi o meu anel de casamento, aliança, bague de mariage, por ridículos 68 reais. Aliás o dinheiro não é ridículo e sim a situação. Patética, tocante, enigmática.
Acho que paguei uns 600 francos por ela em Paris, no boulevard Barbés, um joalheiro árabe.
Escolhi ouro vermelho com polimento fosco e bordas arredondadas, queria que ela tivesse cara de aliança de avó. A data do casamento estava gravada no interior e tinha também a punção do joalheiro do lado de fora atestando a qualidade do ouro.
Uns três meses atrás quando a idéia de vender surgiu verifiquei no jornal que a cotação do ouro estava 34 reais a grama. Quantas gramas teria minha aliança? Pesei ela na mão e pensei numas 10 gramas. Lembrei de um livro que dizia que uma abelha pesava 4 gramas. A aliança na palma da minha mão e eu pesando abelhas. Hoje este pensamento voltou quando ela foi pesada diante de mim umas cinco vezes;3.3, 3.7, 3.4... Menos que uma abelha ! Então a página do livro apareceu de novo na minha mente e vi a imagem de um colibri, tão pequeno que pesava 4 gramas e era do tamanho de uma abelha. Será possível isto? É uma página da coleção "Bichos" em fascículos semanais que meu pai comprava pra mim. Será que ainda existe esta coleção? Talvez esteja na cafua da garagem no prédio onde meus pais moram. É um trabalho de arqueólogo buscar esta coleção. Com máscara, luvas e super dose de antialérgico.
Voltando à venda da aliança. Levei ela no bolsinho da calça de veludo roxo na altura do ovário esquerdo. Quando tirei ela do bolso senti o calor do meu corpo no metal.
Foi no Conic em Brasília. Guto me deixou lá no Del Rey, pára-choque amarrado com torsal de seda vermelho.
O Conic é um centro comercial decadente com comércio decadente. Começei a zanzar e descobri a primeira ótica/joalheria que tinha na vitrine um monte de alianças enfiadas num retângulo de veludo escuro. Perguntei se compravam ouro e um rapaz se apresentou dizendo que ele comprava. Me deu a impressão que ele dividia o espaço da loja. Pediu para eu sentar, sentou-se também. Tirou de dentro da gaveta os seus utensílios de trabalho: uma espécie de lixa, máquina de calcular, uma balança digital do tamanho de uma máquina de calcular e um líquido numa embalagem igual a de colírio.
Esfregou a aliança da lixa e lá ficou um traço de ouro em pó. Pingou o colírio e ficou olhando o ouro brilhar através do líquido. Depois pesou, 3.3 gramas, e disse que pagava 58 reais por ela.
Não esperava que valesse tão pouco. Respondi que ainda não estava certa de vender, agradeci e saí. Continuei a zanzar e descobri mais tres lugares onde compravam ouro. O melhor preço que me ofereceram foi 68 reais. Lembrei de ter visto em uma vitrine de shoping uma aliança por 600 reais. Certamente alguém vai fazer esta besteira, pagar por uma aliança de casamento o que pedirem por ela porque representa um grande momento da sua vida, um marco, um símbolo, inclusive de riqueza. Ridícula riqueza que só vale para quem é rico e não precise nunca vender uma aliança. Ela continuará custando seus 600 reais ou mais, passará de mãe para filha, ou irá com a dona para a cova.
Pobrezinha da minha aliança, nem me despedi dela direito. Poderia ter olhado para a data gravada no interior e quem sabe finalmente conseguir decorar. Quando queria me certificar do ano e dia em que casei olhava para dentro da aliança. Acho que era 8 de fevrier de 1997, minha memória não tem foco.
Me dói agora não ter olhado, foi como não olhar o rosto do morto durante o velório. A tampa do caixão fechou para sempre. O Conic parecia um imenso mausoléu.
Um laço invisível agora une duas joalherias no tempo. O comércio de ouro que se alimenta de alianças desfeitas.
Quando saí dali pensei em aproveitar a viagem para tirar uma foto 3x4 na rodoviária para a carteirinha da abcv, associação brasiliense de cinema e vídeo. Parei no primeiro quiosque que encontrei no pé da escada rolante.
O garoto fotografo tinha o rosto bonito com duas cicatrizes grandes. Negociamos a foto com abatimento de um real e como era digital eu disse que queria aprovar antes de imprimir.
Dentro da cabine havia duas luzes frias, uma de cada lado do rosto. Pensei que a luz natural da rodoviária já era suficiente e para minha surpresa um flash ainda papocou na minha cara. O resultado nunca vi pior na minha vida. O rosto deformado por uma grande angular demasiado próxima, eu parecia um girino pálido e triste com algo de susto no olhar.
Desfiz imediatamente o negócio, disse que voltava outro dia quando estivesse com uma cara melhor e pedi que por favor apagasse aquilo logo pois nunca me havia visto tão feia. Eu fugindo do quiosque e a minha cara ainda congelada na telinha da câmara digital. Imagem indesejada e verdadeira.

Sunday, March 04, 2007

Envelhecer Juntos


Muitas vezes me surpreendi apaixonada e imaginando como seria belo aquele homem aos oitenta anos. Tem gente que quando se apaixona imagina um filho, uma viagem de volta ao mundo, uma casinha de sapé...
Andei tentando penetrar neste mistério de imaginar os homens que amei velhinhos. Esta velhice sonhada estava cercada de elegâncias, nada a ver com problemas de próstata. Lembrei do meu avô materno, alto, magro, fumando charuto, voz grave ecoando no sobrado, chegando da rua e de uma outra época que me comovia como se eu mesma vivesse exilada em um tempo que não era o meu. Os cheiros amadeirados da casa me enchendo de nostalgia e talvez envelhecer fosse atingir um mistério contagiante.
Vejo agora a incoerência de imaginar homens de agora futuramente velhos como outrora.
O fato é que a cada paixão, cada amor, acalentei a ilusão de um encontro em ancianas idades para constatar que viemos juntos de muito longe.
Agora uma nova caminhada, tres anos já. O amor renovado, eu não tão velha, ele bem mais moço, cheirando a bebê. O contador zerado, o encontro marcado adiado para daqui quem sabe cinquenta anos?