
Hoje vendi o meu anel de casamento, aliança, bague de mariage, por ridículos 68 reais. Aliás o dinheiro não é ridículo e sim a situação. Patética, tocante, enigmática.
Acho que paguei uns 600 francos por ela em Paris, no boulevard Barbés, um joalheiro árabe.
Escolhi ouro vermelho com polimento fosco e bordas arredondadas, queria que ela tivesse cara de aliança de avó. A data do casamento estava gravada no interior e tinha também a punção do joalheiro do lado de fora atestando a qualidade do ouro.
Uns três meses atrás quando a idéia de vender surgiu verifiquei no jornal que a cotação do ouro estava 34 reais a grama. Quantas gramas teria minha aliança? Pesei ela na mão e pensei numas 10 gramas. Lembrei de um livro que dizia que uma abelha pesava 4 gramas. A aliança na palma da minha mão e eu pesando abelhas. Hoje este pensamento voltou quando ela foi pesada diante de mim umas cinco vezes;3.3, 3.7, 3.4... Menos que uma abelha ! Então a página do livro apareceu de novo na minha mente e vi a imagem de um colibri, tão pequeno que pesava 4 gramas e era do tamanho de uma abelha. Será possível isto? É uma página da coleção "Bichos" em fascículos semanais que meu pai comprava pra mim. Será que ainda existe esta coleção? Talvez esteja na cafua da garagem no prédio onde meus pais moram. É um trabalho de arqueólogo buscar esta coleção. Com máscara, luvas e super dose de antialérgico.
Voltando à venda da aliança. Levei ela no bolsinho da calça de veludo roxo na altura do ovário esquerdo. Quando tirei ela do bolso senti o calor do meu corpo no metal.
Foi no Conic em Brasília. Guto me deixou lá no Del Rey, pára-choque amarrado com torsal de seda vermelho.
O Conic é um centro comercial decadente com comércio decadente. Começei a zanzar e descobri a primeira ótica/joalheria que tinha na vitrine um monte de alianças enfiadas num retângulo de veludo escuro. Perguntei se compravam ouro e um rapaz se apresentou dizendo que ele comprava. Me deu a impressão que ele dividia o espaço da loja. Pediu para eu sentar, sentou-se também. Tirou de dentro da gaveta os seus utensílios de trabalho: uma espécie de lixa, máquina de calcular, uma balança digital do tamanho de uma máquina de calcular e um líquido numa embalagem igual a de colírio.
Esfregou a aliança da lixa e lá ficou um traço de ouro em pó. Pingou o colírio e ficou olhando o ouro brilhar através do líquido. Depois pesou, 3.3 gramas, e disse que pagava 58 reais por ela.
Não esperava que valesse tão pouco. Respondi que ainda não estava certa de vender, agradeci e saí. Continuei a zanzar e descobri mais tres lugares onde compravam ouro. O melhor preço que me ofereceram foi 68 reais. Lembrei de ter visto em uma vitrine de shoping uma aliança por 600 reais. Certamente alguém vai fazer esta besteira, pagar por uma aliança de casamento o que pedirem por ela porque representa um grande momento da sua vida, um marco, um símbolo, inclusive de riqueza. Ridícula riqueza que só vale para quem é rico e não precise nunca vender uma aliança. Ela continuará custando seus 600 reais ou mais, passará de mãe para filha, ou irá com a dona para a cova.
Pobrezinha da minha aliança, nem me despedi dela direito. Poderia ter olhado para a data gravada no interior e quem sabe finalmente conseguir decorar. Quando queria me certificar do ano e dia em que casei olhava para dentro da aliança. Acho que era 8 de fevrier de 1997, minha memória não tem foco.
Me dói agora não ter olhado, foi como não olhar o rosto do morto durante o velório. A tampa do caixão fechou para sempre. O Conic parecia um imenso mausoléu.
Um laço invisível agora une duas joalherias no tempo. O comércio de ouro que se alimenta de alianças desfeitas.
Quando saí dali pensei em aproveitar a viagem para tirar uma foto 3x4 na rodoviária para a carteirinha da abcv, associação brasiliense de cinema e vídeo. Parei no primeiro quiosque que encontrei no pé da escada rolante.
O garoto fotografo tinha o rosto bonito com duas cicatrizes grandes. Negociamos a foto com abatimento de um real e como era digital eu disse que queria aprovar antes de imprimir.
Dentro da cabine havia duas luzes frias, uma de cada lado do rosto. Pensei que a luz natural da rodoviária já era suficiente e para minha surpresa um flash ainda papocou na minha cara. O resultado nunca vi pior na minha vida. O rosto deformado por uma grande angular demasiado próxima, eu parecia um girino pálido e triste com algo de susto no olhar.
Desfiz imediatamente o negócio, disse que voltava outro dia quando estivesse com uma cara melhor e pedi que por favor apagasse aquilo logo pois nunca me havia visto tão feia. Eu fugindo do quiosque e a minha cara ainda congelada na telinha da câmara digital. Imagem indesejada e verdadeira.