Minhas avós

Estão mortas as duas. Vovó Leonor morreu quando eu tinha seis ou sete anos e vovó Dedé no ano passado com 102 anos.
Vovó Leonor era a minha madrinha e vovó Dedé madrinha da minha irmã Tati. Quando criança não gostei desta repartição de avós, fiquei com a avó mais feia, do mesmo jeito que minha mãe decidiu que para os vestidos azul era a minha cor e rosa a da minha irmã. Não sei como Tati ainda achava que eu era a filha preferida.
Minha avó-madrinha morreu quando eu acabava de operar as amígdalas de maneira que esperaram cicatrizar para contar. Minha mãe me chamou para conversar numa manhã cedinho e disse assim que minha avó havia falecido. Me certifiquei que falecer queria dizer morrer mesmo.
Ela vivia em Salvador e a gente em Fortaleza, a convivência se dava raras vezes .Eu não me sentia especialmente apegada mas refleti que a morte de uma avó era algo importante e procurei chorar . Fiquei sentada no quarto das empregadas chamando lágrimas de dentro de mim e algumas vieram obedientes.
Eu gostava mesmo era de vovó Dedé. Minha primeira recordação, esta quando a gente passa a existir para si mesmo, foi eu caindo da cama e minha avó me salvando pelo braço. Nascendo de um susto eu disse a ela que nunca ia esquecer aquele momento e nunca esqueci.
Voltando à morte de vovó Leonor minha mãe comentou categórica que não se deve repetir o nome de pessoas vivas na família, que isto dá azar. Eu tenho uma prima chamada Leonorzinha, a conclusão lógica é que uma das duas tinha que morrer.
Minha avó teve um ataque cardíaco aos cinquenta anos de idade. Naquela época uma mulher de cinquenta já era uma velhinha. lembro das suas pernas cobertas de varizes azuis e grossas como raizes de árvore. "Morreu pela boca",dizia minha mãe, pois mesmo internada no hospital comia escondido coisas que não podia e que as amigas traziam para ela.
Outro dia conversando com uma prima que mora aqui em Brasília comecei a recordar minha avó Leonor. Com surpresa descobri que ela havia me ensinado um monte de coisas quando eu tinha menos que sete anos de idade: enfiar linha na agulha e dar o nózinho para ela não escapar, um ponto de bordado (o único que sei), dobrar uma folha de papel em sanfona e recortar bonequinhos que ficavam de mãos dadas em ciranda, fazer bichinhos espetando palitos de fósforo queimados em manguinhas pecas, colar tiras de papel para fazer correntes de enfeitar festas de natal, São João e aniversário.
Minhas duas avós eram mulheres muito habilidosas e prendadas. Geneticamente devo às duas a facilidade para os trabalhos manuais mas justiça seja feita antes tarde do que nunca; vovó Leonor foi uma avó muito bacana comigo.

1 Comments:
Me fez lembrar Cecé - a vovó que foi bem legal comigo.
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