Saturday, December 30, 2006

Janelza

Meu casamento havia acabado e eu não tinha dinheiro para voltar ao Brasil. Resolvi fazer algo que sempre havia adiado nos seis anos em que vivia em Paris: aproveitar os retalhos de pano que eu via nas lixeiras do Sentier, o bairro das confecções.
O álibi foi fazer uma calunga para o maracatu de Jorge e Patrícia, um casal de amigos pernambucanos. Para quem não sabe a calunga é o espírito do maracatu. Fui ao Sentier e a primeira lixeira que avistei transbordava de tecido negro, pensei logo: esta calunga quer mesmo nascer.
No segundo ou terceiro dia em que trabalhava na sua confecção recebi um convite de minha amiga Adelina para trabalhar com ela na Fundação Joaquim Nabuco em Recife. Senti que a calunga que ainda nem existia direito me dava de presente minha volta ao Brasil. Prometi que ela seria linda e completa, com todos os detalhes que normalmente são negados às bonecas de pano: pés e mãos com dedos,cintura, peito,bunda,nariz e até xoxota.
Passei quase um mês fazendo Janelza, minha filha com Elza Soares, assim explicava o nome dela para minhas incrédulas amigas. O dia da minha partida se aproximava e eu nada de fazer as malas, a grande triagem do que poderia levar em dois volumes de trinta quilos e mais cinco quilos de bagagem de mão. Eu fazia algo mais importante, um pacto com a magia, um sortilégio de boa sorte para meu novo recomeço.
Fazendo Janelza, eu pensava na minha vida e no meu futuro, meditava. Muitas vezes errava e tinha que desfazer e refazer um longo trabalho. Nesses momentos dizia para mim mesma: isso que refaço por erro o faço melhor que antes. Por causa de um desses erros, Janelza ganhou também um bicho-de-pé de estimação.
Quando Janelza ficou pronta foi uma festa. As amigas que visitavam sempre o apartamento, Stella, Aninha Z (foto), Karem Vesúvia, Marina e Pat, encheram ela de presentes. Ganhou até um piercing de umbigo! Embalada, também fiz um guarda-roupa básico para ela, um vestidinho para cada dia da semana. Meu ex-marido sempre a perguntar quando eu ia fazer as malas.
Deixei Janelza em Paris com a única condição de só morar com pessoas solteiras. Eu estava com muito abuso de casamento; ser calunga do maracatu de Jorge e Patrícia era o trabalho dela.

1 Comments:

Blogger Guto Melo said...

Queria ver a xoxota da Janelza.

30/12/06 19:03  

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