Madagascar

Chegando mais uma vez em São Paulo em um dia de sol. É inverno mas não faz frio.
Na restituição de bagagens uns brasileiros falam de comida celebrando a alegria do retorno. A mulher é de Goiás e diz que hoje haverá churrasco na casa dela, o homem é do interior de São Paulo. Não é a primeira vez que escuto brasileiros falarem de comida na hora que o avião entra no território nacional. Lembro de uma mulher no avião estalando a língua e falando de galinha cabidela para quem quisesse ouvir.
No ônibus que me levará ao centro da cidade mais um sinal de que voltei; o meu vizinho fala no celular sem nenhuma contenção de volume e eu fico sabendo como andam seus negócios e que Maluf deve ganhar as eleições.
O ônibus sai um momento da marginal Tietê e penetra num bairro popular. Surgem casinhas que em São Paulo são indícios de um modo de vida extinto. Casinhas exiladas de um Brasil interiorano onde as pessoas ainda colocam suas cadeiras na calçada no fim da tarde para tomar a fresca e ver gente passar. Nada de quintal com árvores ou jardim com rosas, mas essas casinhas ainda conservam um jeito antigão de roupa dominical.
Leio uma placa: o Bar do Gordo apoia candidato tal. Deve ser um atestado de qualidade quando o dono de um restaurante popular é gordo. Tem um "Gordo" também no Recife, deve ter a mesma autoridade em comida barata e farta.
O cabelo negro e brilhante de uma mulher na calçada chama a minha atenção. No espelho da seção de cosméticos do free shop um tufo de cabelos brancos saiu de súbito da clandestinidade. Onde andavam escondidos? Foram traídos pela curiosidade de se verem no espelho depois da minha longa ausência.
A esta altura do trajeto já estava consciente da operação de filmar com os olhos o que via. Era o filme de mais uma volta, de mais um reencontro.
O ônibus retorna à marginal e um vestido verde-água se recorta contra o céu azul-magenta cruzando a ponte peatonal acima da minha cabeça. O momento cromático desse céu é uma super-produção de fim de mundo. Só uma cidade de vinte milhões de habitantes pode produzir esse efeito especial no céu do meu filme imaginário.
Lá vai um homem velho levando seus tesouros em quatro sacos de lixo e um outro que cruza a marginal engarrafada com um colchão mulambento debaixo do braço. O homem e sua cama...
Minha terra tem palmeiras... estava assistindo ao filme distraída e levei um sopro no coração: numa parada de ônibus alguém fez seu pouso. Ali, embaixo do meu nariz, uma cadela dormia tranqüilamente dando de mamar aos seus cachorrinhos, todos lindos e gordinhos. O carro do catador de papel parado do lado, esperando. Sem saber que ia chorar, chorei.
Bendito seja este homem, a cadela e seus cachorrinhos e bendita esta cidade enquanto deixar esta mãe amamentar seus filhos com tranqüilidade e que eles continuem sempre gordinhos.
Acabei de chegar.

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