Garota de sorte

As visitas se debruçavam sobre o berço da recém-nascida e subitamente o riso perdia a naturalidade, ficava congelado como uma pose de retrato até o sangue frio tomar o lugar da espontaneidade perdida. Alguns desviavam do alvo e diziam:
-Que enxoval mais primoroso!
Ou recorriam à eterna tábua de salvação:
-Como se parece com vocês!
Uma visita mais afoita quis agradar e soou como corda em casa de enforcado:
-Para mim não existe criança feia, são todas lindas.
Os pais da menina comportavam-se magnificamente. Era um mistério saber se haviam combinado algo entre si ou era a notória cegueira das corujas.
-Que esperta! Que inteligente! Que engraçada! Que carinhosa! Que jeitosa! Que ágil! Que simpática!
A menina foi crescendo e colecionando elogios. Um dia chegou da escola com olhos aflitos.
-Mãe, sou bonita?
A mãe já esperava esta pergunta há séculos e não gaguejou na resposta.
-Lindíssima!
-Pai, sou bonita?
-Filha ,você é uma beleza exótica.
A sobrancelha da mãe reprovou de longe a palavra exótica mas a menina nem percebeu e também não perguntou mais nada.
Ela tinha os vestidos mais bonitos, o caderno mais enfeitado, a mãe mais simpática que preparava as merendas mais gostosas quando os coleguinhas vinham estudar na casa.
Era aceita por todos como ela era, uma cor a mais na paleta do pintor divino e chegava mesmo a despertar inveja:
-De que ela vive sempre rindo? Será que não sabe?
É, ela não sabia mesmo e ria e dançava e ia a todas as festas, falava com todo mundo. Era uma garota popular, o que na adolescência é o trunfo mais alto.
Já mocinha os elogios mudaram. As amigas da sua mãe. depois de longos anos de convivência diziam com grande naturalidade:
-É uma moça preparada, uma moça de futuro.
Mas ficaram todos boquiabertos mesmo foi quando ela namorou, noivou e casou.
Casou de branco e a calda do vestido tinha cinco metros. O comentário geral era:
-Parece uma rainha!
Talvez ela preferisse parecer uma princesa ou uma fada, mas rainha também servia e o noivo não era nenhum sapo.
Teve uma filha que, oh alívio, era a cara do pai. Nunca a viram tão feliz como quando recebeu sua filhinha dos braços da enfermeira na maternidade.
-Como ela é linda!
O tempo foi passando, o casamento acabou por causa da possessividade dele. Ela se liberou: queimou o sutiã e comprou uma cinta-liga, teve amantes, colecionou histórias e virou escritora.
Hoje é uma senhora, mas nem tanto, lutando contra a balança entre um chope e outro. Observa com sabedoria a ação da força de gravidade que vai diluindo a arrogãncia dos contornos definidos e atraindo todo mundo para debaixo da terra. Socorre suas amigas quando elas estão murchinhas por falta de amor e auto-estima.

3 Comments:
Oi, Jane!
Eba! Agora, sim.
POIS É, NÉ? ASSIM SÃO AS COISAS...
BEIJOCA
Eita, sorte macabra!
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