Antes que eu me esqueça

Vivendo e apagando, senilidade precoce ou desapego zen-budista? Temo que se não começar a registrar o que me acontece não terei nada para lembrar quando chegar aos cento e vinte anos que é o quanto penso viver.
Já notei que toda vez que quero contar algo da minha infância só aparece uma idade, 12 anos, me obrigo a dizer 13,14,15, mas fica um sabor de trapaça.
Organizo minhas datas em antes e depois de coisas que por milagre se perenizaram na memória para tentar saber em que ano outras coisas aconteceram .É uma matemática complicada, por ex: entrei na faculdade em 80/1, ou seja o primeiro semestre de 1980, a minha idade não vem na memória então tenho que calcular a partir do ano em que nasci,1962, ou seja dois anos antes de completar vinte anos e como faço aniversário em novembro eu tinha dezoito incompletos, 17 anos! Ufa.
Retrospectiva 2006:
Janeiro fui a Sto Domingos dar uma oficina de fotografia e ver minha melhor amiga depois de tres anos. Fiz uma viagem internacional sem um tostão no bolso e voltei com quinhentos dólares de pago.
Voltei ao Brasil e vi uns 160 vídeos em uma semana e meia sendo jurada do concurso de filmes universitários.
Fevereiro e março tratei da saúde dos meus dentes, tapei um grande buraco de uma coroa partida.
Em seguida resolvi tratar minha anemia que se arrastava por tres anos já, desde que a descobri fazendo um exame médico de admissão. Passei a tomar suplemento de ferro e fazer hemogramas de controle.
Fui convidada para dar outra oficina de fotografia e quase fico louca preparando as aulas para no final ter uma baita decepção com as pessoas que organizaram a coisa. Minha menstruação atrasou 15 dias e até pensei que estava grávida mas foi só stress.
Em junho estive no festival de cinema de Fortaleza onde se comemorava os vinte anos de fundação da eictv, a escola onde estudei cinema em Cuba. Revi amigos e farreei de graça por 15 dias.
Voltei a Brasília e apareceu um trampo relâmpago; fotografar por sete dias a folia do divino espírito santo. Trabalho pesado acordando com os galos e dormindo literalmente com as galinhas: um dia ao acordar vimos que havíamos montado nossa barraca dentro do galinheiro ao lado de um monte de esterco. Mas a experiência religiosa foi muito forte e eu aproveitei para pedir uma graça ao poderoso divino espírito santo:ter um filho. Foi aí que minha menstruação voltou antes da hora e durou tres meses.
Procurei logo uma ginecóloga em brasília que diante do diagnóstico de mioma apresentou como única solução tirar o útero. Saí em choque da consulta mas ainda bem que tenho irmã médica e um marido jornalista que me garantiram que nos tempos atuais tirar o útero só em caso de tumor maligno. A operação ficou marcada para ser em Fortaleza com o melhor médico de lá neste assunto, o Dr. Nogueira. Mas antes da operação me tocou fotografar um trabalho maravilhoso no mes de agosto em Recife/Olinda; um documentário para o dia da consciência negra, dirigido pela minha amiga Clarice. Foram vinte dias dentro de terreiros e maracatus, conhecendo a inteligentsia negra pernambucana e em contato com outras divindades. Eu me sinto bem recebida por todas, seja o divino espírito, santo seja oxalá. Recorri aos poderes medicinais da cabocla Iguatemi no centro Jupiraci em Olinda para manter sob controle a hemorragia. Ela me passou nove banhos de assento e chá de urtiga branca com rosa carmelha, uma rosa muito difícil de encontrar e que acabou sendo roubada de um jardim numa manhã de chuva intensa quando eu ia embora de lá. É aí que a gente descobre a verdadeira amizade: Clarice rodando comigo a periferia de Recife/Olinda: Peixinhos, Chão-de-Estrelas e o escambáu, debaixo de uma chuva torrencial, atrás de uma rosa que ninguém mais cultiva. Enquanto estava trabalhando por lá morreu em Salvador a minha avó materna ,com 103 anos, de um resfriado que pegou no dia do seu aniversário. Vovó Dedé. Minha prima disse que mesmo na uti ela ainda cantava a sua música preferida "a mesma praça, o mesmo banco, as mesmas flores o mesmo jardiiim"... Ela esticava sempre o final da frase.
Em setembro fui jurada de vídeo na Jornada da Bahia e em seguida fui me operar em Fortaleza.
Encheram um pote de vidro com os incontáveis miomas do meu útero, calculei fácil um meio quilo de bolinhas.
Eu tinha um trabalho que já havia sido adiado tres vezes e que estava agora confirmado para coincidir com o décimo sexto dia de pós-operatório. Como era um curta em uma só locação e com gente que me parecia tranquila botei fé em deus e pé na tábua e fui vendo como a cada dia eu ia melhorando um pouco; primeiro fazer chichi, depois peidar, depois cagar etc, etc. Voltei a Brasília e fotografei o curta do Xará. Deu tudo certo, mesmo eu me arrastando como uma velhinha. Em novembro fiz 44 aninhos . A foto do post foi tirada por Guto entre o natal e o ano novo em Goiás velho,banho de chuva no jardim da pousada Dona Sinhá.
Inté.
