Tuesday, June 19, 2007

Cresci mas não esqueci


Eu ainda chupava bico quando ganhei meu primeiro bichinho de estimação, um vira-lata branco de bolinhas pretas chamado Lulu.
No dia em que Lulu chegou, cachorro bebê, tomaram minha chupeta, cortaram a ponta dela e deram para ele.
Chorei muito vendo o Lulu mastigar o meu bico que ficou definitivamente imprestável. Agora você é grande , soube de repente.
Lulu não durou muito lá em casa, deve ter mastigado outras coisas que não devia. Deram ele para um açougueiro da vizinhança e disseram-me, como consolo, que ele ia ser muito feliz pois ganharia osso todo dia.

Tuesday, June 12, 2007

O Espírito da Reforma Agrária !

Vejam a coincidência, ficou pronto o documentário onde eu consegui a muda da plantinha que eu chamo carinhosamente de Espírito da Reforma Agrária.
Antes desse trabalho eu achava lindo ver um canavial. Hoje eu conheço violência que existe por trás desta paisagem uniforme: a destruição da mata atlântica e dos índios, o sistema escravagista , a exploração do homem do campo, a destruição das roças de subsistência em prol da produção de açúcar e álcool.
O documentário conta a história de Alexina Crespo, ex-mulher de Francisco Julião, advogado das Ligas Camponesas. Era ela que com suas longas unhas pintadas de vermelho datilografava todos os processos de indenização dos trabalhadores rurais . Alexina fazia também a segurança do marido ,armada de revólver e posando de madame. Uma mulher fascinante que escolheu o caminho da luta armada, da clandestinidade e mesmo assim conseguiu manter sua família unida e salva nos tempos da ditadura militar.
O filme vai estrear na mostra competitiva de documentários do Festival Internacional de Cinema Feminino,de 19 a 24 de junho, no Rio de Janeiro, www.feminafest.com.br

Friday, June 08, 2007

Eu predador

Munida de dois pincéis, um pequeno de pelos suaves e outro maior de cerdas ásperas, assumo o papel de predador natural das pragas do meu jardim. Afinal essa varanda já é um ecossistema, não totalmente auto-sustentável e meio desequilibrado, e eu sou o elemento J , polivalente. Forneço a água diária, troco os vasos e controlo as pragas.
Uma praga não sabe que é uma praga, ou será que sabe? Diferente da simbiose onde um organismo ajuda o outro a praga só pensa nela e esquece de ajudar o hospedeiro podendo até matá-lo.
Elas minam a juventude das plantas, estão lá onde a casca é mais tenra, onde a seiva alimenta os brotos. Preferem a sombra, o avesso da folha, o pé do talo, as rachaduras do caule, as raízes superficiais.
Tenho uma relação totalmente empática com minhas plantas e fico imaginando que talvez essas pragas estejam no meu espírito e a planta é só uma imagem do que passa em mim. Combater as pragas é um ritual xamânico de meditação .
Essa planta que aparece nas fotos eu a chamo de Espírito da Reforma Agrária. Trouxe a muda da fazenda Nova Galiléia, primeira terra conquistada legalmente para desapropriação pelas Ligas Camponesas. Essa planta é linda como a idéia da reforma agrária. Eu a identifico também com o lado mais exuberante da minha personalidade, o lado mais generoso, porém o mais frágil, repleto de pragas. São umas lêndeas brancas, parecem imóveis mas descobri que andam até rápido demais, uns cinquenta centimetros por hora. Notei também que a planta tem estratégias de defesa, algumas folhas têm o dom de atrair todas as lêndeas para elas e quando estão bem infestadas caem, sacrificam-se pelo bem da planta.
Costumo conversar com as pragas enquanto as espano para o espaço sideral: sinto muito, sei que vocês são seres vivos e só querem ser felizes mas isso é uma guerra e eu estou do lado da planta, sou o predador que vai colocar ordem nessa bagunça, estão pensando que essa folha é um resort de milionários, uma colônia de férias? Acabou a praia de vocês, acabou a maciota.

Esta é uma mudinha que estou preparando para uma amiga que ficou encantada com a planta mãe. Ela vai levar o Espírito da Reforma Agrária para sua casa ! Infelizmente é bem provável que a praga vá junto...

Monday, June 04, 2007

Animal, vegetal, mineral.


Na próxima encarnação quero ser uma pedra. Cheguei à conclusão que ser pedra é uma das formas mais evoluídas da existência, mais ainda do que ser planta.
Para mim ser vegetariana não é melhor que ser carnívora. Tenho muita pena das plantas, que não podem sair correndo e nem gritar, quando são comidas vivas. Eu me sinto uma vilã quando abro a geladeira e encontro batatas, cenouras e beterrabas germinando no escuro da gaveta de legumes. Os dentes de alho e o gengibre também brotam e eu tenho que dizer não à planta que quer nascer, mando todo mundo para a panela, alimentar minha imperfeição. Sou má como o deus que me criou.
Antes pensava que bom seria viver só de luz , água e minerais, ser uma oliveira de oitocentos anos... Porém ser uma pedrinha de bilhões de anos é melhor ainda. Uma pedra de superfície, solta ao sol, modelada pela água, cristalina. Nada de pedra nos rins, isola !
Quem já foi num terreiro sabe que os orixás moram nas pedras. Um iniciado sabe reconhecer a pedra habitada pelo axé do seu orixá. A pedra chama o teu olho, destaca-se, e você sabe.
As vezes quando caminho no mato ou na praia recolho uma pedra, dessas que me chamam. Levo ela comigo por um tempo, conversando com o calor da mão, depois a deixo ao lado de uma outra e sinto-me útil por ter feito duas pedras se encontrarem.

Sunday, June 03, 2007

As águas vão rolar !


Perdi o pique. Depois da viagem e de uma crise gerada por uma decisão difícil que tive que tomar, travei. Estou há dias sem conseguir normalizar o blog. Não quero transformar ele num muro de lamentações e como já tinha dito antes: minha vida não é um blog aberto.
Então hoje fui salva por um sonho inspirador. Sonhei com uma grande cachoeira desaguando alegremente diante dos meus olhos . Preparem-se então pois vem aí uma fase em que falarei muita água, só besteira mesmo.
Aliás, eu considero uma grande mostra de sabedoria saber falar besteira na hora certa.
Valei-me Oxum, Iara, Oiá, Iemanjá !