Friday, June 08, 2007

Eu predador

Munida de dois pincéis, um pequeno de pelos suaves e outro maior de cerdas ásperas, assumo o papel de predador natural das pragas do meu jardim. Afinal essa varanda já é um ecossistema, não totalmente auto-sustentável e meio desequilibrado, e eu sou o elemento J , polivalente. Forneço a água diária, troco os vasos e controlo as pragas.
Uma praga não sabe que é uma praga, ou será que sabe? Diferente da simbiose onde um organismo ajuda o outro a praga só pensa nela e esquece de ajudar o hospedeiro podendo até matá-lo.
Elas minam a juventude das plantas, estão lá onde a casca é mais tenra, onde a seiva alimenta os brotos. Preferem a sombra, o avesso da folha, o pé do talo, as rachaduras do caule, as raízes superficiais.
Tenho uma relação totalmente empática com minhas plantas e fico imaginando que talvez essas pragas estejam no meu espírito e a planta é só uma imagem do que passa em mim. Combater as pragas é um ritual xamânico de meditação .
Essa planta que aparece nas fotos eu a chamo de Espírito da Reforma Agrária. Trouxe a muda da fazenda Nova Galiléia, primeira terra conquistada legalmente para desapropriação pelas Ligas Camponesas. Essa planta é linda como a idéia da reforma agrária. Eu a identifico também com o lado mais exuberante da minha personalidade, o lado mais generoso, porém o mais frágil, repleto de pragas. São umas lêndeas brancas, parecem imóveis mas descobri que andam até rápido demais, uns cinquenta centimetros por hora. Notei também que a planta tem estratégias de defesa, algumas folhas têm o dom de atrair todas as lêndeas para elas e quando estão bem infestadas caem, sacrificam-se pelo bem da planta.
Costumo conversar com as pragas enquanto as espano para o espaço sideral: sinto muito, sei que vocês são seres vivos e só querem ser felizes mas isso é uma guerra e eu estou do lado da planta, sou o predador que vai colocar ordem nessa bagunça, estão pensando que essa folha é um resort de milionários, uma colônia de férias? Acabou a praia de vocês, acabou a maciota.

Esta é uma mudinha que estou preparando para uma amiga que ficou encantada com a planta mãe. Ela vai levar o Espírito da Reforma Agrária para sua casa ! Infelizmente é bem provável que a praga vá junto...

4 Comments:

Blogger Nirton Venancio said...

Olá, Jane! Descobri seu blog numa entrevista sua ao jornal O Povo.
Dei uma lida nas postagens anteriores e fico admirado pela sinceridade dos textos.
Continuarei lhe acompanhando.
Um abraço conterrâneo!

11/6/07 09:29  
Anonymous Anonymous said...

Pincel neles!

"Maciota", faz tanto tempo que eu não ouvia essa palavra...

11/6/07 11:29  
Blogger Muadiê Maria said...

Jane, menina, vc não imagina como eu luto com esses bichinhoa brancos e andantes. Fico achando que eles gostam de umidade. Meu quintalzinho recebe sol, mas mora ao lado de dunas numa cidade que já é úmida. Tirar de pincel resolve? Já tirei várias vezes com um algodão, já botei pesticida, já botei fumo de rolo! Uma luta. Meu sonho é entupir o quintal de joaninhas( tão lindas) pra se alimentar deles. Mas...onde achá-las?

Essa sua planta, Espírito de Reforma Agrária é muito especial mesmo. Se morasse aí iria pedir uma muda. Também gosto de plantas com histórias...
beijos,
Martha

11/6/07 15:36  
Blogger Jane Malaquias said...

Oi Nirton, bemvindo sempre, eu tb já andei visitando teu blog.
Oi Bruno, maciota é uma palavra simpática não?
Oi Maria, combater pragas é ocupação para uma vida toda, eu adotei o pincel depois de gastar uma grana inutilmente com inseticida natural.E pensar que outro dia encontrei uma joaninha na calçada...
Beijos para todos

11/6/07 18:57  

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