Monday, April 23, 2007

Dia de festa!


Estou estreando na direção de fotografia de longa com O Côco, A Roda, O Pnêu e O Farol. O filme está na mostra competitiva do Cine PE e amanhã vai ter sambada de côco no Amaro Branco, o bairro de pescadores que fica embaixo do farol de Olinda. Vou matar a saudade da cidade que eu mais amo e dos amigos que deixei por lá.
Sempre digo que meu amor por Olinda é correspondido. O convite para trabalhar nesse filme surgiu quando eu deixava ela para vir morar em Brasília. No momento da despedida ela disse: fica mais um pouquinho, vamos tomar um café na cozinha que eu quero te mostrar mais uma coisa...
Ela sempre me chama de volta e eu vou, correndo, buscar o seu cheiro noturno de jasmim, sua lua cheia no mar, o canto negro ecoando dos quintais, os tambores , pitanga-fruta-pão-jasmim, cidade do interior, cosmopolita, decadente e alegre. Vou subir a ladeira onde, lá no alto, o vento marinho faz a curva. Ai, ai, ai...

Sunday, April 22, 2007

A árvore do mestre


Sexta passada conheci onde a Integral Bambu começou. Marcelo, o nosso mestre e criador deste esporte milenar, convidou um grupo de alunos para conhecer a árvore da sua infãncia, uma mangueira.
Poucos compareceram ao encontro, certamente porque a manhã estava fria e chuvosa. Eu mesma achava que ia dar com os burros n'água, mas não dei, e fui felicitada pelo mestre, a quem a chuva nunca intimidou. Vieram os que deveriam vir, concluiu ele com clarividência. Éramos eu e mais três rapazes, que eu já conhecia dos treinos livres, aos sábados.
Ao lado da árvore há um recinto todo forrado de tatame e foi lá que começamos um trabalho orientado para a desintoxicação dos músculos com movimentos vibratórios. Marcelo explicou que uma das formas de desfazer uma contração muscular é adicionar novas informações à fibra nervosa de modo a embaralhar o estímulo de dor. Para isso os exercícios de vibração acompanhados de massagem percussiva são bem eficientes e divertidos.
Esse primeiro momento, relaxante e tonificante, no espaço protegido da sala com tatame, deixou em mim uma sensação de grande leveza e luminosidade. Eu estava serena e grata de estar ali e a luz cinza da manhã revelou-se uma notícia alegre da água renovadora de tudo. Aliás, mover-se como água é um dos ensinamentos de segurança quando se explora uma árvore: transferir o peso do corpo de maneira fluida, sentindo se o galho vai aguentar...
Depois fomos convidados a subir na mangueira conservando a intenção de cura, porém eu estava me sentindo super-jane e fui com muita sede ao pote: em vez de subir pelo caminho mais fácil tentei um tronco grosso acima da minha cabeça. Todo o meu corpo pedia aquele caminho, lancei-me, não consegui. Lutei contra a gravidade com toda a minha força mas escorreguei na casca limosa da árvore e ganhei uma raladura grande no braço, que vergonha. Ainda disfarcei com uma história de batismo de sangue mas a verdade é que fui uma precipitada. Quando a gente se sente muito bem fisicamente o cuidado é não se deixar levar por uma euforia irresponsável, outra lição, mas bem que podia ter dado certo...
Lembrei das árvores da minha infância: o flamboyant da calçada onde levei um tombo grande pulando do muro para um galho, o ficus no jardim onde subia rápido quando minha mãe queria me bater e onde espionava o namoro das empregadas , a goiabeira do quintal onde durante anos arrisquei minha vida tentando chegar ao telhado da casa, até que um dia consegui, com o coração na mão.

Friday, April 20, 2007

Lembrança vívida de uma festa natimorta


Era um aniversário de criança em um subúrbio de Fortaleza. Não existe coisa mais triste que a tarde caindo, ao som da ave-maria no rádio, nesses bairros, onde a pobreza honrada fez sua morada.
As casas geminadas, apoiando umas nas outras, seus mofos, suas goteiras, seus limos. Todo mundo usa a mesma marca de sabonete, o mesmo talco no sovaco, sem conseguir disfarçar o azedo da carne, encardida por falta de sonhos possíveis.
Tem sempre um velho de herança para cuidar, que, um dia deita na cama e não levanta mais, esquece de morrer, e vai adoecendo toda a família dos nervos, começando pelas mulheres.
Além da velhice entrevada, a cada família toca um louco, uma tia solteirona, um filho que não deu para nada e alguém que partiu e nunca mais voltou. Flores de plástico cagadas de mosca e bujões de gás vestindo saiotes bordados. A gaveta empenada onde os papéis de presente usados são meticulosamente guardados. Os quartos sem janela, a casa é uma grande tripa digerindo a mobília e as pessoas.
Pois fomos convidados para uma festa num bairro assim. O dono da casa trabalhava com o meu pai no Banco do Nordeste do Brasil.
Chegamos cedo, a sala de visitas estava vazia e nua. Os móveis grandes haviam sido retirados de modo a deixar espaço para a correria das crianças e as cadeiras aguardavam os convidados formando um grande círculo. Havia na parede a foto ampliada do rosto de uma menina adolescente. Alguém comentou baixinho que era a filha mais velha do casal , falecida.
Aquela foto impressionou-me muito, como se eu não soubesse que crianças são mortais, como se eu soubesse que a morte de um filho é a pior das maldições, como se fosse impossível uma festa de aniversário naquela casa.
Por uma coincidência macabra, durante a festa toda só tocou um disco com a seguinte música:

No alto daquele morro, no alto daquele morro
Estão te chamando assim Mariquinha, estão te chamando assim
É uma garota, é uma garota
Deste tamanho assim Mariquinha, deste tamanho assim Mariquinha
Quando ela crescer, quando ela crescer
Traz ela pra mim Mariquinha, traz ela pra mim Mariquinha....

Thursday, April 19, 2007

A prima Lucinha


Minha prima Lucinha foi deportada de Maragogipe, Bahia, para a casa dos meus pais em Fortaleza. Minha avó descobriu que o namorado dela andava pulando a janela do quarto da donzela. Ela era irmã adotiva da minha mãe mas, como tinha quase a nossa idade, a gente chamava de prima. Minha mãe conta que Lucinha chegou na casa dos meus avós completamente sub-nutrida, com um ano de idade pesava menos que seis quilos e tinha carrapatos no ouvido . Ela foi criada com muito menos rigidez e mais carinho que os filhos naturais da minha avó.
Da última vez que havia visto Lucinha a gente ainda brincava de boneca e de princesa. Agora ela estava uma moça de 16 anos e eu uma pré-adolescente de 12. Ela já ficara nua na frente do namorado e eu nunca tinha beijado na boca.
Ela tratou de me instruir no assunto. Primeiro revelou-me que beijo na boca era língua com língua, coisa que não dava para perceber nos filmes que eu via na tv. Sentávamos na calçada e ela ia analisando a "mala" dos homens que passavam e tecendo comentários sobre o tamanho. Eu não tinha o olhar agudo dela, não conseguia ver nenhuma diferença e, confesso que até hoje, não é a primeira coisa que vejo em um homem. Quando algum lhe interessava ela dava um silvo longo e agudo e depois a gente fazia cara de santas e o homem a olhar em torno para descobrir de onde tinha vindo o assobio
A estadia de Lucinha lá em casa não durou muito, logo ficou evidente que estava grávida. Voltou para Maragogipe e obrigaram o namorado a casar com ela.
Nunca mais vi Lucinha. Soube anos atrás que trabalhava como faxineira em uma escola pública em Camaçari, teve três filhos e ficou banguela.

Tuesday, April 17, 2007

A velha da cara branca


Eu tinha menos que cinco anos e morava numa vila na rua Rodrigues Junior em Fortaleza.
Meu vizinho de portão era o Sandrinho, da minha idade. A gente brincava de esticar o braço pelos buracos do portão até conseguir tocar nossas mãos. Sandrinho tinha o braço fininho, era cardíaco e já morreu faz tempo. A gente ficava o dia todo grudado no portão vendo as pessoas na rua, era a nossa televisão. O personagem preferido era a velha da cara branca que passava todos os dias a caminho da igreja.
Era uma velhinha magra, com cabelos longos até à cintura, completamente brancos. Sua roupa também era alva: blusa de manga comprida abotoada até o pescoço e saia rodada de pregas.
Quando ela passava iluminada pelo sol da manhã era uma verdadeira aparição do resplendor.
Ficávamos gritando, eufóricos de tanta incompreensão, até a garganta arder de rouca.
-Olha a velha da cara branca!
-Olha a velha da cara branca!
-Olha a velha da cara branca!

Sunday, April 15, 2007

O coelho branco


Eu nunca havia imaginado que eu seria capaz de armar um tal escândalo para conseguir algo, mas foi amor total à primeira vista.
Passeava com meus pais na Feira dos Municípios quando avistei, esparramado numa gaiola, um coelho branco ,enorme e lindo.
Fiquei louca pelo coelho, não podia imaginar minha vida dali para frente sem ele. Chorei de genuíno desespero diante da negativa dos meus pais. Eles ainda tentaram continuar o passeio mas eu só fazia chorar, completamente abatida. Acho que eles ficaram tão surpresos com o meu descontrole que resolveram comprar o coelho para mim.
Lembro de acariciar o seu pelo com a mão enfiada na caixa enquanto voltávamos para casa no fusquinha. Se eu soubesse...
Quando abri a caixa no quintal ele tratou de escapar para longe, não queria conversa com humanos. Ficamos perseguindo o coelho no quintal e eu caí no grande erro de encurralar ele no canto do muro. O coelho voou sobre mim derrubando-me no chão. Foi tão rápido e ainda lembro da patada suja de terra que levei na cara. A unha dele arranhou minha bochecha, sangrei.
Além do quintal nossa casa tinha um grande terreno vago ao lado, que meu pai havia comprado depois e anexado à casa através de um portãozinho. Era "o terreno", como a gente o chamava. O coelho mudou-se para lá e instalou-se debaixo de um tronco seco de árvore que ficava encostado no muro oposto ao de nossa casa.
Eu o visitava todos os dias. Ficava horas olhando ele esticado na sua cama de areia rosada, uma espécie de banheira cavada no chão. Ele respirava ansioso com a minha presença, não me olhava diretamente mas me controlava com a orelha, parecia sempre irritado.
O coelho viveu no terreno mais ou menos um ano, comia mato e ignorava minhas cenouras.
Um dia amanheceu morto na banheira de areia, durinho. Foi a segunda vez em que pude acariciar o seu pelo.

Saturday, April 14, 2007

Lindão viajou


Foi passar dez dias de férias no Rio, ver a familia. Passei a última hora antes do aeroporto cheirando ele, enchendo os meus pulmões com o seu cheiro de coisa linda. Ele fazendo a mala todo atrasado, metendo as roupas amassadas de qualquer jeito e eu de nariz grudado feito aqueles peixes que grudam em tubarão.
Depois de deixá-lo no aeroporto, tarde esplendorosa, fui assistir um filme de Wong Kar Wai no cine Brasília, um arremate perfeito para uma alma como a minha.
Meu jantar foram duas latinhas de cerveja (no lugar do chá) e um sanduiche de queijo.Capotei cedo.
Hoje, para achar que estar sozinha tem suas vantagens, fiz para o almoço fígado de galinha, que ele não gosta, com pimenta, que ele não pode.
Ele me ligou a cobrar do celular do irmão para dizer que a máfia do crime agora controla as ruas de Inhaúma e que vai escrever um post sobre isso no blog dele.
Eu prometi a mim mesma que estes dias aqui sozinha serão de muito estudo e produção intelectual, que emagrecerei pelo menos dois quilos e que vou progredir na minha ginástica.
Mas hoje no fim da tarde me deu uma vontade de tomar uma garrafa de vinho branco gelada e ficar esperando a chegada dos pensamentos desatinados.

Wednesday, April 11, 2007

Eucaristia


Ele sabe cozinhar e às vezes convida os amigos para uma comilança na sua casa, mas tem um detalhe: é sempre o primeiro a se servir e escolhe o melhor pedaço para si. Esse fato que pude observar muitas vezes sempre me intrigou. Ele nega com um gesto tudo o que cozinhar para os outros significa para mim: doação, generosidade, instinto maternal.
A comida é posta na mesa, digamos um assado, um pedaço se sobressai , é nitidamente o mais gostoso. Ele vai lá e, crau, coloca no prato dele. O gesto é seguido de um olhar panorâmico onde ele comprova que todos viram que o melhor pedaço é o dele. Neste momento sinto que não fui convidada para comer e sim para presenciar a sua façanha. Ninguém comenta nada, todos se servem e comem. Nada me convence de que é a informalidade dos tempos de hoje, ou a intimidade da amizade, ou mesmo a pura e simples falta de educação, ou um egoísmo declarado.
Vejo o meu amigo tomar posse da comida empunhando o garfo como um cetro. Ele é o rei à mesa! Se eu não fosse uma pessoa gulosa, talvez nunca tivesse percebido sua atitude. Defendo a teoria de que ele, no momento em que cozinha, fabrica este pedaço, este quinhão mais apetitoso e o dispõe artisticamente na travessa para que se sobressaia aos outros e dá o bote justo quando todos o identificaram e o desejaram por um milésimo de segundo.
Ontem tive uma iluminação! Meu amigo vem do interior do nordeste, uma cultura patriarcal quase monarquista. Ele deve ter visto com assombro infantil o seu pai sentar à mesa e ser servido, como um rei, antes de todos e receber o melhor quinhão, para ele reservado por uma mãe atenta e submissa.
O pai morreu cedo, isso é um fato, e ele terminou de ser criado pela mãe e pelas irmãs. Foi então que penetrou no mistério das panelas, aprendeu a cozinhar como uma mulher, como a própria mãe! Porém, para um homem da sua estirpe, é inadimissível o dar feminino. O homem toma, o homem concede!
O pai era o sol em torno do qual todos giravam: a mãe, planeta redondo e grave; ele e suas irmãs, piões alegres. A morte do pai desequilibrou as órbitas para sempre.
Vejo o meu amigo, solteirão, cozinhando para uma família inventada de amigos. Neste momento ele é a mãe, domina o poder de nutrir e maravilhar o paladar dos seus. Mas, quando ele chega à mesa baixa nele o espírito do pai,melhor ainda, a mãe que ele havia sido até momentos antes serve o pai que existe nele! Ele reconhece nos nossos olhares boquiabertos a si mesmo, criança, fascinado pelo ritual familiar . O quadro está completo, seu universo volta a girar como antes.
A mãe atrás de uma nuvem corta rodelas de ovo perfeitas.

Sunday, April 08, 2007

Sexta-feira da Paixão
















Thursday, April 05, 2007

O verdadeiro Blog













Wednesday, April 04, 2007

Enigmas do sono


Frases que estavam na minha boca em dois momentos em que acabava de despertar:



Sentimento extinto, ao que corresponde abismo inseparável do ser.



No doar encontro do coração, quanto mais esfinge ,mais havaiana.




Tuesday, April 03, 2007

Memórias do 0x0


Sabe o que faz um elefante para se esconder numa plantação de morangos? Pinta as unhas de vermelho!
É exatamente assim uma pessoa apaixonada, sem chançe, tentando disfarçar para os amigos e para o principal (des)interessado o seu estado de elefantíase emocional.
Você promete a si mesma que vai ser difícil e consegue no máximo passar tres dias sem ligar .No terceiro papoca com linha e carretel, deixa mil mensagens na casa , no celular, com os amigos. Caso dê sorte de encontrar o sujeito do outro lado da linha ele vai te dizer que não está podendo conversar naquele momento, que te liga depois, e não liga! Tua vida se transforma na espera da ligação que não vem. Esqueceu, normal. Só que, para quem está nesse estado de sofrimento isso tem um gosto de humilhação proposital, de demonstração de poder. Você sente que está condenada a ser a pessoa que pede e a outra a que concede, uma merda.
Falo do estágio avançado da doença, mas também tem aquele momento em que a coisa ainda não está tão declarada, tudo não passa de uma paquera, você nem tem o telefone dele, muito menos intimidade para ligar. É outro tipo de perseguição.
Você arrasta suas amigas para festas, bares, campeonato de futebol, bingo, o que for, na espera de encontrar por acaso a pessoa por lá. A noite vira uma peregrinação, a famosa ronda.
Ele já percebeu o seu olhar grudado , pidão, mas não está nem aí. Se já foi apresentado a você as vezes te comprimenta com a sobrancelha e vira a cara. Você continua muito natural, pintando as unhinhas de vermelho com pintinhas pretas...
Trata de descobrir onde ele mora, o telefone, com quem anda, onde anda, até virar parte da paisagem dele.
Mas o pior, pior de tudo é quando o cara é popular , assediado, ou seja: você e a torcida feminina do Flamengo estão de olho nele. Você se reconhece em outras caras, outros risos nervosos, olhares inquietos, vozes que se tornam estridentes sem querer. Você e suas clones chegam na festa como princesas: roupa nova, cabelo lavado, sorriso de esperança e ,eufóricas ,se embriagam rápido demais, exibem-se de maneira desgraciosa,vulgar, ficam com a cara desfeita pelo porre e voltam para casa vomitando sapos.

Monday, April 02, 2007

Toda se sentindo


É isso aí galera, vou começar a semana me amostrando .
Esta de blusinha verde sou eu, trepando no bambu.
A cada aula reabilito um músculo, recupero um movimento e aprendo a vencer o medo!
O objetivo como já disse é subir e descer, com vida, de árvores bem altas.
Cada vez mais longe do chão...
Espero vocês lá em cimaaaaaaaaaa!!!!!