
Era um aniversário de criança em um subúrbio de Fortaleza. Não existe coisa mais triste que a tarde caindo, ao som da ave-maria no rádio, nesses bairros, onde a pobreza honrada fez sua morada.
As casas geminadas, apoiando umas nas outras, seus mofos, suas goteiras, seus limos. Todo mundo usa a mesma marca de sabonete, o mesmo talco no sovaco, sem conseguir disfarçar o azedo da carne, encardida por falta de sonhos possíveis.
Tem sempre um velho de herança para cuidar, que, um dia deita na cama e não levanta mais, esquece de morrer, e vai adoecendo toda a família dos nervos, começando pelas mulheres.
Além da velhice entrevada, a cada família toca um louco, uma tia solteirona, um filho que não deu para nada e alguém que partiu e nunca mais voltou. Flores de plástico cagadas de mosca e bujões de gás vestindo saiotes bordados. A gaveta empenada onde os papéis de presente usados são meticulosamente guardados. Os quartos sem janela, a casa é uma grande tripa digerindo a mobília e as pessoas.
Pois fomos convidados para uma festa num bairro assim. O dono da casa trabalhava com o meu pai no Banco do Nordeste do Brasil.
Chegamos cedo, a sala de visitas estava vazia e nua. Os móveis grandes haviam sido retirados de modo a deixar espaço para a correria das crianças e as cadeiras aguardavam os convidados formando um grande círculo. Havia na parede a foto ampliada do rosto de uma menina adolescente. Alguém comentou baixinho que era a filha mais velha do casal , falecida.
Aquela foto impressionou-me muito, como se eu não soubesse que crianças são mortais, como se eu soubesse que a morte de um filho é a pior das maldições, como se fosse impossível uma festa de aniversário naquela casa.
Por uma coincidência macabra, durante a festa toda só tocou um disco com a seguinte música:
No alto daquele morro, no alto daquele morro
Estão te chamando assim Mariquinha, estão te chamando assim
É uma garota, é uma garota
Deste tamanho assim Mariquinha, deste tamanho assim Mariquinha
Quando ela crescer, quando ela crescer
Traz ela pra mim Mariquinha, traz ela pra mim Mariquinha....