Wednesday, April 11, 2007

Eucaristia


Ele sabe cozinhar e às vezes convida os amigos para uma comilança na sua casa, mas tem um detalhe: é sempre o primeiro a se servir e escolhe o melhor pedaço para si. Esse fato que pude observar muitas vezes sempre me intrigou. Ele nega com um gesto tudo o que cozinhar para os outros significa para mim: doação, generosidade, instinto maternal.
A comida é posta na mesa, digamos um assado, um pedaço se sobressai , é nitidamente o mais gostoso. Ele vai lá e, crau, coloca no prato dele. O gesto é seguido de um olhar panorâmico onde ele comprova que todos viram que o melhor pedaço é o dele. Neste momento sinto que não fui convidada para comer e sim para presenciar a sua façanha. Ninguém comenta nada, todos se servem e comem. Nada me convence de que é a informalidade dos tempos de hoje, ou a intimidade da amizade, ou mesmo a pura e simples falta de educação, ou um egoísmo declarado.
Vejo o meu amigo tomar posse da comida empunhando o garfo como um cetro. Ele é o rei à mesa! Se eu não fosse uma pessoa gulosa, talvez nunca tivesse percebido sua atitude. Defendo a teoria de que ele, no momento em que cozinha, fabrica este pedaço, este quinhão mais apetitoso e o dispõe artisticamente na travessa para que se sobressaia aos outros e dá o bote justo quando todos o identificaram e o desejaram por um milésimo de segundo.
Ontem tive uma iluminação! Meu amigo vem do interior do nordeste, uma cultura patriarcal quase monarquista. Ele deve ter visto com assombro infantil o seu pai sentar à mesa e ser servido, como um rei, antes de todos e receber o melhor quinhão, para ele reservado por uma mãe atenta e submissa.
O pai morreu cedo, isso é um fato, e ele terminou de ser criado pela mãe e pelas irmãs. Foi então que penetrou no mistério das panelas, aprendeu a cozinhar como uma mulher, como a própria mãe! Porém, para um homem da sua estirpe, é inadimissível o dar feminino. O homem toma, o homem concede!
O pai era o sol em torno do qual todos giravam: a mãe, planeta redondo e grave; ele e suas irmãs, piões alegres. A morte do pai desequilibrou as órbitas para sempre.
Vejo o meu amigo, solteirão, cozinhando para uma família inventada de amigos. Neste momento ele é a mãe, domina o poder de nutrir e maravilhar o paladar dos seus. Mas, quando ele chega à mesa baixa nele o espírito do pai,melhor ainda, a mãe que ele havia sido até momentos antes serve o pai que existe nele! Ele reconhece nos nossos olhares boquiabertos a si mesmo, criança, fascinado pelo ritual familiar . O quadro está completo, seu universo volta a girar como antes.
A mãe atrás de uma nuvem corta rodelas de ovo perfeitas.

6 Comments:

Blogger Unknown said...

This comment has been removed by the author.

12/4/07 21:35  
Blogger Unknown said...

sou judeu-cristão, os ultimos serão os primeiros, mas como agnóstico me garanto nos meios pra não passar fome... adoraria q sempre a ceia entre amigos e familia fosse uma comunhão !
Saudadis

12/4/07 21:37  
Anonymous Anonymous said...

Nossa, incrível o retrato que você fez da personalidade do cara! Muito bem escrito, Jane, gostei! ;)

13/4/07 06:33  
Blogger Muadiê Maria said...

Bacana mesmo sua análise. Eu que nem conheço o cara vi a cara dele.
Sou baiana e minha madrasta sempre diz que na próxima encarnação quer vir homem baiano, ou seja, pra não fazer nada dentro de casa.
Beijo,
Martha

14/4/07 05:40  
Blogger Jane Malaquias said...

Tenho que agradecer ao muso inspirador embora ele não tenha se reconhecido no texto, he, he, he!

14/4/07 15:35  
Blogger Trelles said...

Jane, adorei teu blog!
Esse retrato está mesmo ímpressionante!
Beijo!

14/4/07 18:42  

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