Eucaristia

Ele sabe cozinhar e às vezes convida os amigos para uma comilança na sua casa, mas tem um detalhe: é sempre o primeiro a se servir e escolhe o melhor pedaço para si. Esse fato que pude observar muitas vezes sempre me intrigou. Ele nega com um gesto tudo o que cozinhar para os outros significa para mim: doação, generosidade, instinto maternal.
A comida é posta na mesa, digamos um assado, um pedaço se sobressai , é nitidamente o mais gostoso. Ele vai lá e, crau, coloca no prato dele. O gesto é seguido de um olhar panorâmico onde ele comprova que todos viram que o melhor pedaço é o dele. Neste momento sinto que não fui convidada para comer e sim para presenciar a sua façanha. Ninguém comenta nada, todos se servem e comem. Nada me convence de que é a informalidade dos tempos de hoje, ou a intimidade da amizade, ou mesmo a pura e simples falta de educação, ou um egoísmo declarado.
Vejo o meu amigo tomar posse da comida empunhando o garfo como um cetro. Ele é o rei à mesa! Se eu não fosse uma pessoa gulosa, talvez nunca tivesse percebido sua atitude. Defendo a teoria de que ele, no momento em que cozinha, fabrica este pedaço, este quinhão mais apetitoso e o dispõe artisticamente na travessa para que se sobressaia aos outros e dá o bote justo quando todos o identificaram e o desejaram por um milésimo de segundo.
Ontem tive uma iluminação! Meu amigo vem do interior do nordeste, uma cultura patriarcal quase monarquista. Ele deve ter visto com assombro infantil o seu pai sentar à mesa e ser servido, como um rei, antes de todos e receber o melhor quinhão, para ele reservado por uma mãe atenta e submissa.
O pai morreu cedo, isso é um fato, e ele terminou de ser criado pela mãe e pelas irmãs. Foi então que penetrou no mistério das panelas, aprendeu a cozinhar como uma mulher, como a própria mãe! Porém, para um homem da sua estirpe, é inadimissível o dar feminino. O homem toma, o homem concede!
O pai era o sol em torno do qual todos giravam: a mãe, planeta redondo e grave; ele e suas irmãs, piões alegres. A morte do pai desequilibrou as órbitas para sempre.
Vejo o meu amigo, solteirão, cozinhando para uma família inventada de amigos. Neste momento ele é a mãe, domina o poder de nutrir e maravilhar o paladar dos seus. Mas, quando ele chega à mesa baixa nele o espírito do pai,melhor ainda, a mãe que ele havia sido até momentos antes serve o pai que existe nele! Ele reconhece nos nossos olhares boquiabertos a si mesmo, criança, fascinado pelo ritual familiar . O quadro está completo, seu universo volta a girar como antes.
Vejo o meu amigo, solteirão, cozinhando para uma família inventada de amigos. Neste momento ele é a mãe, domina o poder de nutrir e maravilhar o paladar dos seus. Mas, quando ele chega à mesa baixa nele o espírito do pai,melhor ainda, a mãe que ele havia sido até momentos antes serve o pai que existe nele! Ele reconhece nos nossos olhares boquiabertos a si mesmo, criança, fascinado pelo ritual familiar . O quadro está completo, seu universo volta a girar como antes.
A mãe atrás de uma nuvem corta rodelas de ovo perfeitas.

6 Comments:
This comment has been removed by the author.
sou judeu-cristão, os ultimos serão os primeiros, mas como agnóstico me garanto nos meios pra não passar fome... adoraria q sempre a ceia entre amigos e familia fosse uma comunhão !
Saudadis
Nossa, incrível o retrato que você fez da personalidade do cara! Muito bem escrito, Jane, gostei! ;)
Bacana mesmo sua análise. Eu que nem conheço o cara vi a cara dele.
Sou baiana e minha madrasta sempre diz que na próxima encarnação quer vir homem baiano, ou seja, pra não fazer nada dentro de casa.
Beijo,
Martha
Tenho que agradecer ao muso inspirador embora ele não tenha se reconhecido no texto, he, he, he!
Jane, adorei teu blog!
Esse retrato está mesmo ímpressionante!
Beijo!
Post a Comment
<< Home