O coelho branco

Eu nunca havia imaginado que eu seria capaz de armar um tal escândalo para conseguir algo, mas foi amor total à primeira vista.
Passeava com meus pais na Feira dos Municípios quando avistei, esparramado numa gaiola, um coelho branco ,enorme e lindo.
Fiquei louca pelo coelho, não podia imaginar minha vida dali para frente sem ele. Chorei de genuíno desespero diante da negativa dos meus pais. Eles ainda tentaram continuar o passeio mas eu só fazia chorar, completamente abatida. Acho que eles ficaram tão surpresos com o meu descontrole que resolveram comprar o coelho para mim.
Lembro de acariciar o seu pelo com a mão enfiada na caixa enquanto voltávamos para casa no fusquinha. Se eu soubesse...
Quando abri a caixa no quintal ele tratou de escapar para longe, não queria conversa com humanos. Ficamos perseguindo o coelho no quintal e eu caí no grande erro de encurralar ele no canto do muro. O coelho voou sobre mim derrubando-me no chão. Foi tão rápido e ainda lembro da patada suja de terra que levei na cara. A unha dele arranhou minha bochecha, sangrei.
Além do quintal nossa casa tinha um grande terreno vago ao lado, que meu pai havia comprado depois e anexado à casa através de um portãozinho. Era "o terreno", como a gente o chamava. O coelho mudou-se para lá e instalou-se debaixo de um tronco seco de árvore que ficava encostado no muro oposto ao de nossa casa.
Eu o visitava todos os dias. Ficava horas olhando ele esticado na sua cama de areia rosada, uma espécie de banheira cavada no chão. Ele respirava ansioso com a minha presença, não me olhava diretamente mas me controlava com a orelha, parecia sempre irritado.
O coelho viveu no terreno mais ou menos um ano, comia mato e ignorava minhas cenouras.
Um dia amanheceu morto na banheira de areia, durinho. Foi a segunda vez em que pude acariciar o seu pelo.

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